Mawaca participa do projeto ECOMÚSICA com dois shows no Sesc Vila Mariana

Mawaca e Fábio Caramuru: música, natureza e território

Nos dias 23 e 24 de outubro de 2026, o Mawaca subiu ao palco do Teatro Antunes Filho, no Sesc Vila Mariana, ao lado do pianista e compositor Fábio Caramuru, com participação da cantora indígena Djuena Tikuna, para apresentar EcoMúsica, um espetáculo que propõe escutar a natureza e reconhecer as relações entre música, culturas e territórios.

Foram dois shows realizados em um momento particularmente intenso para o Brasil, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais. Em meio às tensões políticas e à expectativa que atravessava o país, a música tornou-se também um espaço de encontro, escuta e reflexão sobre a vida que queremos preservar e o mundo que desejamos deixar para as próximas gerações.

A preparação aconteceu em um período curto, com um repertório diferenciado e novos desafios musicais para o Mawaca. O trabalho envolveu a criação de sonoridades, a adaptação de arranjos e a construção de uma linguagem comum entre artistas com trajetórias distintas. As composições de Fábio Caramuru, originalmente arranjadas por Rodrigo Morte, receberam adaptações cuidadosas de Magda Pucci para a formação do Mawaca, respeitando as características das obras e explorando as possibilidades expressivas das vozes e dos instrumentos.

Três momentos: pássaros, águas e cantos originários

Dividido em três blocos, o espetáculo propôs uma viagem sonora por diferentes elementos da natureza e universos culturais.

O primeiro bloco foi dedicado ao ar e às aves, reunindo músicas que evocam o voo, o canto e a presença dos pássaros em nossas paisagens sonoras. O repertório trouxe figuras emblemáticas como o Uirapuru, o Sabiá e o Tangará, além de seres da noite, como a coruja Murucututu, cujos cantos nos aproximam dos mistérios da floresta.

O segundo bloco percorreu o universo das águas, dos mares e dos ventos. A canção Asadoya Yunta, tradicional de Okinawa, trouxe a presença do mar e a sonoridade de uma cultura insular. Velas, composição de Magda Pucci sobre poema de Luís de Camões, estabeleceu outra conexão entre música, poesia e paisagem marítima.

O bloco também incluiu uma toada dedicada a Iemanjá, orixá associada ao mar e às águas, evocando a força simbólica e espiritual desse elemento em nossas culturas.

O terceiro bloco deu destaque aos cantos dos povos indígenas, com músicas dos povos Kayapó (Mebengokrê) e Tikuna.

A presença de Djuena Tikuna, cantora indígena e importante referência no cenário da música contemporânea, trouxe ao espetáculo a força de vocalidades originárias e de tradições musicais profundamente conectadas aos territórios, à memória coletiva e às relações entre os seres humanos e a natureza.

Ao longo desses três momentos, EcoMúsica articulou repertórios de diferentes origens, composições autorais e cantos tradicionais, construindo um percurso em que a diversidade musical se tornou uma forma de escuta e reflexão sobre os mundos que habitamos.

Um manifesto pela vida, pela floresta e pela diversidade

A dimensão visual do espetáculo foi construída com projeções de fotografias de Renato Soares, fotógrafo dedicado ao registro dos povos indígenas do Brasil, de seus modos de vida, territórios e relações com o ambiente. As imagens ampliaram a experiência musical, aproximando o público de paisagens e universos culturais que nos convidam a repensar nossa relação com a Terra.

As projeções, concebidas por Ciça Lucchesi, dialogaram com as sonoridades do espetáculo, criando uma paisagem sensível na qual a presença dos povos originários e a diversidade dos ambientes naturais ganharam espaço.

Antes da entrada de Djuena, o espetáculo abriu espaço para um momento-manifesto. Magda Pucci leu um texto de sua autoria sobre a situação das florestas, as ameaças aos povos indígenas e o momento político tenso que o país atravessava às vésperas do segundo turno das eleições. A palavra falada interrompeu por instantes o fluxo musical para afirmar a urgência de defender os territórios, a diversidade cultural e o meio ambiente.

A leitura foi recebida com muitos aplausos, e a participação do público, que cantou junto e reforçou o caráter coletivo daqueles encontros. A música se tornou, assim, não apenas uma experiência estética, mas também uma forma de expressão e posicionamento diante das questões que atravessam nosso tempo.

O encerramento aconteceu com Latinoamérica, do coletivo porto-riquenho Calle 13, em uma adaptação de Magda Pucci para o Mawaca. A canção, que celebra a identidade latino-americana, a força de seus povos e a riqueza de seus territórios, deu ao espetáculo um final de forte sentido simbólico, conectando música, pertencimento e resistência.

Para o Mawaca, esse espetáculo abriu a possibilidade de explorar novos caminhos musicais sem perder de vista uma questão central em sua trajetória: como a música pode aproximar culturas, ampliar nossa percepção da diversidade e contribuir para uma relação mais atenta com a vida em todas as suas formas.


Ficha técnica:

Espetáculo: EcoMúsica
Concepção, arranjos e direção musical: Magda Pucci
Piano e composições: Fábio Caramuru
Arranjos originais das composições de Fábio Caramuru: Rodrigo Morte
Adaptações dos arranjos para o Mawaca: Magda Pucci
Participação especial: Djuena Tikuna
Fotografias: Renato Soares
Projeções: Ciça Lucchesi
Fotos dos shows: Flávio Florido e Marcello Vitorino
Vozes — Mawaca: Ana Ganzert, Fabiana Lian, Rita Braga, Letícia Pereira, Magda Pucci e Zuzu Leiva.

Instrumentistas:

  • Ana Eliza Colomar — flauta e violoncelo
  • Gabriel Levy — acordeom
  • Ramiro Marques — saxofone
  • Ricardo Zoyo — contrabaixo acústico
  • Valéria Zeidan — vibrafone
  • Marcus Simon — percussão
  • Luciano Khatib — percussão


Produção: Ethos Produtora de Arte e Cultura
Produção: Amanda Moraes, Kelma Lima e Yasmine Zaitune
Local: Sesc Vila Mariana — Teatro Antunes Filho
Datas: 23 e 24 de outubro de 2026
Realização: Sesc SP

Equipe Técnica
Cibele Midler – Roadie
Cristina Souto Pojo do Rego – Iluminação
Hernán Romero – Técnico monitor
Daniel Tapia – Técnico de Pa 


ECOMÚSICA

Mawaca e Fábio Caramuru – Participação especial de Djuena Tikuna

BLOCO 1 — PÁSSAROS

  1. Uirapuru — Obra de Fábio Caramuru. Arranjo: Rodrigo Morte. Adaptação: Magda Pucci.
  2. Cigarra — Obra de Fábio Caramuru. Arranjo: Rodrigo Morte. Adaptação: Magda Pucci.
  3. Murucututus — Compilação de cantos tradicionais. Arranjo: Magda Pucci.
  4. Sabiá / Saudade do Brasil — Obra de Fábio Caramuru. Arranjo: Rodrigo Morte. Adaptação: Magda Pucci.
  5. Tangará — Obra de Fábio Caramuru. Arranjo: Rodrigo Morte. Adaptação: Magda Pucci.

BLOCO 2 — ÁGUAS

  1. Asadoya Yunta — Canto tradicional de Okinawa (Japão). Arranjo: Magda Pucci e Gabriel Levy.
  2. Velas — Obra e arranjo: Magda Pucci.
  3. Koth Biro — Canto tradicional de Uganda. Arranjo: Ayub Ogada. Adaptação: Magda Pucci.

BLOCO 3 — NATUREZA / INDÍGENA

  1. Canção Kayapó — Canto de nominação do povo Kayapó.
  2. Tamota Moriore — Canto de despedida do povo Kayapó.
  3. Techiarugu — Canto do povo Tikuna.
  4. Eware — Canto do povo Tikuna.

BLOCO FINAL

  1. Molihua / Yemanjá — Canto tradicional chinês e toada de babassuê. Arranjo: Magda Pucci.
  2. Latinoamérica — Calle 13. Adaptação: Magda Pucci.
  3. Eh Boi! — Canto tradicional do Pará. Arranjo: Magda Pucci.

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Manifesto

EcoMúsica

um canto pela vida

Há uma floresta que respira dentro de nós.
Há rios que correm pelas nossas veias.
Há cantos que vêm de muito antes de nós
e que guardam a memória da Terra.

Quando uma árvore cai, não cai apenas uma árvore.
Cai uma morada, um alimento, uma história.

Quando um rio adoece, adoecem também os povos que dele vivem.
Quando um povo perde seu território,
o mundo inteiro perde um pouco de sua humanidade.

Por isso, precisamos caminhar ao lado dos povos indígenas,
aliar nossas vozes às suas vozes,
reconhecer seus saberes, respeitar seus territórios
e aprender outras maneiras de habitar o mundo.

Queremos rios livres, florestas de pé,
terras indígenas demarcadas, povos respeitados.
Queremos que a diversidade da vida
seja tão valorizada quanto a liberdade de pensar,
de cantar, de discordar e de sonhar.

Porque a democracia também é isso:
a possibilidade de muitas vozes coexistirem,
sem que uma queira calar todas as outras.

Dizemos não à intolerância,
ao silenciamento, à violência
e à perda de direitos conquistados com tanta luta.

Hoje, cantamos pela floresta,
pelos povos originários,
pelas águas, pelos pássaros
e por todos aqueles que ainda virão.

Que a nossa música não seja apenas beleza,
mas também memória, cuidado e compromisso.

E que, diante das escolhas que definem nossos caminhos,
saibamos reconhecer o valor de cada conquista,
a responsabilidade de cada voto
e a importância de não permitir retrocessos.

Que possamos seguir construindo um país
onde a vida seja digna,
a natureza respeitada,
a diversidade acolhida
e o futuro sustentável para todos.

Porque cuidar da democracia,
caminhar ao lado dos povos da Terra
e defender os direitos de todos
é cuidar da vida que queremos deixar
para as próximas gerações.

🎊 Três décadas de Mawaca!

Uma página especial para comemorar nossos 30 anos de estrada.

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